segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uma realidade além das obras

Os transtornos causados pelas obras na Av. Antônio Carlos, região da Lagoinha, demonstram mudanças como a presença de moradores de rua e alterações nos pontos comerciais


O morador de rua Fabiano Francisco, de 28 anos,
considera a obra importante para Belo Horizonte


Enquanto homens e máquinas trabalham nas obras de duplicação da Av. Antônio Carlos, além dos transtornos causados ao trânsito de veículos, às pessoas que passam pelo local e ao comércio, há uma outra face que pode passar desapercebida ou, talvez, ser considerada normal: no meio dos escombros das áreas já demolidas, moradores de rua constroem barracos e, aos poucos, se juntam a outras pessoas para dividir as novas moradias.

É o caso de Fabiano Francisco Oliveira, 28 anos, que explica a sua situação. “Nós viemos descendo olhando as casas, pegando bicos de trabalho e vendo se tinham dono para a gente morar nelas. Nós moramos na grama entre os prédios e como a policia não estava deixando a gente ficar lá, nós fomos morar no estacionamento na Antonio Carlos esquina com Rua Formiga, como derrubaram lá, agora a gente fica morando de casa em casa até derrubarem”.

Fabiano, que mora com sua esposa Sheila Renê, de 34 anos, e mais outras seis pessoas, afirma que morar em meio às obras pode trazer um pouco de insegurança. “O único perigo que vejo é o risco de uma chacina. Alguém jogar álcool ou gasolina na gente. Fora isso, não existe risco nenhum”, afirma ele, que pretendia ficar no local por, no máximo, mais um mês. “Depois disso eles devem tirar a gente daqui, aí eu quero morar de aluguel. Mas morar de aluguel e sozinho, ainda por cima na Pedreira (Prado Lopes), não dá não”, conclui.

Fabiano considera a obra importante para o desenvolvimento da cidade e até mesmo para as pessoas que vivem na mesma situação que a dele. “Ela é importante porque gera empregos diretos e indiretos, tanto de carteira assinada como para nós aqui moradores de rua. Como por exemplo, a construção aqui ao lado, a própria prefeitura compra as madeiras, telhas, barras de ferros e outras coisas que podem ser reaproveitadas na mão da gente”, afirma ele sobre a coleta de materiais que realizam em meio ao que sobrou das demolições.

Falando da reação das pessoas que passam próximas ao barraco que ele construiu, Fabiano diz que algumas têm medo e outras não. “No meu modo de ver, aquelas que tem raciocínio se sentem seguras. Porque nós já cansamos de flagrar gente tentando roubar senhoras idosas e pegamos para ‘dar um pau’. Mas é claro que cabeça dos outros é terra que ninguém pisa. Tem alguns que chegam, olham sem saber se voltam ou se vem. Eu mesmo não confio nas pessoas que estão aqui e tinha medo antes de vir para as ruas”, completa.

Fabiano conta que, no dia-dia do barraco, ficam apenas oito pessoas que dividem as responsabilidades e até mesmo os problemas. “Às vezes aparece alguns para dividir o café e a marmita do almoço. Outros vem mesmo ‘encher o saco’ ou usar drogas, a gente é que tem de se controlar”. Quando chove, o barraco não sofre grandes problemas, segundo o morador. “A coberta não molha. Tem uns plásticos no buraco da lâmpada e madeira. O problema da chuva nós conseguimos resolver”, afirma.

Segundo Fabiano, ele mora na rua como consequência da vida devido ao caminho que ele escolheu. “A gente entra em coisa errada, como droga, crime, aí o caminho é esse mesmo”. Sobre o que faria após o término das obras na avenida, o morador de rua é categórico: “No dia 30 eu estou indo para o aluguel, com ou sem as meninas que moram comigo. Se eu estiver sozinho, só com R$ 50 reais a minha mãe vai inteirar o resto e eu estou indo embora daqui. Os outros, cada um por si. Vamos só eu e minha mulher”.


O trabalho da polícia



Dias após a conversa de Fabiano com a equipe de reportagem, ele e seus companheiros tiveram que deixar o barraco que construíram em meio aos escombros de um antigo depósito de materiais de construção, após serem advertidos por policiais militares que atuam na região. O soldado Leandro Guimarães Amorim, da 21ª Companhia de Polícia Militar, do bairro Lagoinha, afirmou que a solicitação de desocupação foi feita por um engenheiro da Prefeitura de BH responsável pela obra. “Os moradores estavam no local há aproximadamente 20 dias”, diz o PM.

A justificativa para que a desocupação fosse realizada era a conclusão dos trabalhos de demolição da obra, que consistem na retirada de escombros e limpeza da área para o prosseguimento das obras de duplicação da Av. Antônio Carlos. “A solicitação foi feita pelo engenheiro devido ao receio de que os moradores causassem problemas. Além disso, eles insistiam em prolongar a permanência deles, usando frases como ‘vamos sair neste horário’, para ficar mais algum tempo”, salienta o policial.

Os moradores tiveram um tempo máximo de 20 minutos para deixar o local. Nenhum dos moradores do bairro fez solicitação à Polícia sobre o comportamento dos ocupadores do barraco. Somente uma estudante da faculdade Facisa, registrou ocorrência: “ela teve a bolsa arrancada por um homem que saiu de forma repentina do local onde dos moradores de rua estavam”, afirma o soldado.

Os policiais da 21ª Companhia de Polícia Militar atuam fazendo rondas no bairro, inclusive na área que compreende a Rua Comendador Nohme Salomão, próximo ao SENAI, e a Rua Adalberto Ferraz, nas proximidaades da praça Vaz de Melo, revezando-se em escalas de seis horas, nos horários das 6h às 10h, das 10h às 16h e de 16h às 22h.

Obras da Lagoinha tiram sono de comerciantes

“Os alunos não atravessam a avenida”. Essa é a reclamação de Edson Wander Bandeira, sócio de uma pequena papelaria que tem como renda principal as cópias tiradas por universitários do UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte).

Após seis anos como vizinhos de muro do Campus Diamantina, na região da Lagoinha, foram forçados a sair do ponto por causa da obras na avenida. De início, tudo bem. Edson Bandeira e seu irmão e sócio, Altair Wilson Bandeira, conseguiram alugar outra lojinha bem em frente à faculdade. Não haveria problemas.

Mas, para a surpresa dos dois, a demanda por seus produtos e serviços caiu cerca de 80 por cento, tirando-lhes o sono e trazendo dificuldades financeiras. “Não esperávamos que fosse tão diferente do lado de cá. O xerox estava sempre lotado. Às vezes, o pessoal até deixava o material quando chegava para a aula e só pegava na saída por causa da fila.” Lembra Edson, acrescentado que “agora dá até sono ficar aqui”.

Além disso, o comerciante se queixa do barulho excessivo das máquinas usadas na reforma da avenida e do trânsito. “Do lado de lá, ficávamos a alguns metros de distancia do fluxo de veículos. Aqui, eles passam praticamente na porta”. Reclama, ainda, do excesso de poeira vindo das escavações.

No entanto, os sócios estão otimistas e acreditam que após o encerramento das obras tudo deve voltar a ser como antes. Acham que o motivo pelo qual os alunos do UniBH não atravessam a avenida para utilizarem os seus serviços é a dificuldade causada pela falta de sinalização e faixa para pedestres. “Depois que estiver tudo pronto, a sinalização ficará melhor e será mais segura a travessia. Tudo deve melhorar”.


Dados sobre a reforma da Antônio Carlos

Desde janeiro, estão em execução as obras do Complexo da Lagoinha. O projeto tem um orçamento de R$ 250 milhões, sendo R$ 190 milhões do Estado e R$ 60 milhões da Prefeitura. O investimento é voltado para alargamento da pista, construção de sete viadutos e desapropriações.

De acordo com o governador Aécio Neves, a duplicação da Antônio Carlos é o primeiro passo conjunto entre o Governo do Estado e a Prefeitura no sentido de adequar a cidade para receber a Copa do Mundo de 2014. “Estamos falando de um corredor que facilita a ligação da cidade com o Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, e também com o Aeroporto da Pampulha, além do próprio Complexo Mineirão/Mineirinho. Por isso, a importância desta obra é a razão pela qual o governo resolveu assumi-la. As obras caminham em uma velocidade extraordinária”, conclui.

Pela Antônio Carlos circulam diariamente 85 mil veículos. O alargamento pretende beneficiar os usuários de transporte coletivo com a diminuição do tempo das viagens. Hoje, a avenida possui no trecho em obras apenas uma pista por sentido, com três faixas de rolamento cada uma. Com a ampliação, passará a ter quatro faixas por pista, além de uma terceira pista, com duas faixas exclusivas para o transporte coletivo.

Na altura da rua Rio Novo, haverá um viaduto para complementar o Complexo da Lagoinha, atendendo às interligações do Viaduto Leste e da rua Célio de Castro com a avenida Pedro II, além das ruas Bonfim, Itapecerica e Além Paraíba. Estas ligações ficam disponíveis também para o via duto Oeste e para a avenida Cristiano Machado.

Na rua Formiga, próximo ao conjunto IAPI, os viadutos e soluções viárias em desnível irão promover a interligação do bairro São Cristóvão com os bairros Lagoinha e Bom Jesus. A interseção da rua Araribá, em mão dupla, substituirá a transposição da Antônio Carlos que hoje é feita pela rua Jequitaí, por meio da ligação da rua Serra Negra e imediações, e possibilitará o reposicionamento dos veículos dos bairros Bom Jesus e São Cristóvão, com forte impacto na região do Hospital Belo Horizonte.

A obra de reurbanização da Antônio Carlos prevê ainda a melhoria da iluminação e a construção de passarelas acopladas aos viadutos e semáforos para garantir a segurança dos pedestres. Outra melhoria será no projeto paisagístico, que prevê o plantio de 1.500 mudas de árvores no trecho entre a rua dos Operários e o Complexo da Lagoinha, em substituição às 140 que foram retiradas devido às obras. Ou seja, para cada árvore que foi retirada, mais de dez serão plantadas.


por Fabiana Cristina, Fransisnei Bispo, Letícia Barros e Lucas Ribeiro
com revisão de Patrick Vaz e Wellington Santos

ENTRE GARANTIAS E RESULTADOS



















Muito barulho, engarrafamento e stress. Essas são impressões diárias dos cidadãos que precisam passar pelo trecho em obras da Avenida Antônio Carlos. Em sua segunda fase de duplicação, a obra abrange desde a região da rodoviária conhecida como Lagoinha até a Pampulha. De acordo com a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (SETOP), a duplicação da avenida é um convênio entre o governo do estado de Minas Gerais e a Prefeitura de Belo Horizonte.

O orçamento é de R$250 milhões, esse montante será responsável pela construção de sete viadutos e as pistas passarão a ter quatro faixas cada uma, sendo que haverá uma exclusiva para ônibus, as chamadas busway, com duas faixas dedicadas a esse fluxo. Desse total investido, R$ 190 milhões são do Governo do Estado e R$ 60 milhões são da prefeitura.

A configuração visual desse trecho da cidade foi mudada radicalmente. Onde coexistiam fábricas e casas históricas construídas no início do século passado, hoje existem operários, tratores, caos e asfalto. As desapropriações necessárias a realização do projeto, foram responsáveis por 44% do valor total, quase a metade dos recursos, cerca de R$111 milhões.

Atualmente o vendedor Wagner Ferreira, que mora no bairro Rio Branco (região de Venda Nova) e trabalha no centro de Belo Horizonte, sai de casa com uma hora e meia de antecedência para pegar o ônibus e trabalhar. Ele percorre toda a avenida Antônio Carlos e gasta cerca de 40 minutos para ir do início ao fim da via. Mas Wagner espera que esse tempo seja reduzido após o término da duplicação da avenida. “Tenho esperança de ganhar mais alguns minutos de sono quando as obras acabarem”.

Mas, por agora o tempo para se deslocar dobrou, agora a estudante de jornalismo Natália da Costa gasta em média 30 min. para chegar até a faculdade onde estuda. A coisa se complica quando a jovem calcula o tempo gasto para chegar ao trabalho. Moradora do bairro Cachoeirinha comenta que espera “que as obras tenham sido planejadas e calculadas tendo emvista o crescimento da cidade, principalmente por se tratar de uma via de acesso praticamente única, que liga a região da Pampulha ao Centro, rodoviária. O que se vê, até agora, é que o gargalo no viaduto da Lagoinha, que dá acesso ao Centro da cidade, permanece”.

Depois de aderir às calçadas para chegar até sua casa, tem se preocupado com a violência da região. Considera que as obras facilitam a ação de ladrões. Comenta ainda que “os motoristas, principalmente os motociclista, vem cometendo muitas imprudências e infrações. E desrespeitam os pedestres, na região do UNI-BH, que não tem nenhuma segurança para trafegar”. Ressalta ainda que “estamos sujeitos a acidentes a todo momento”, devido a má qualidade das vias cridas para pedestres, que parecem estar ruindo, e todas essas falhas tem piorado com o período das chuvas. Diz ainda que “os desvios, para os motoristas, parecem bem sinalizados. Quanto aos pedestres, não há vias seguras de passagem nem sinalização adequada”. Considera que “não existe segurança” para o pedestre no local e se sente sujeita a acidentes nas proximidades da obra.

Já a estudante de direito Ana Luiza Jardim, freqüentadora assídua de todos os jogos do Mineirão, comenta que “o caos está instalado nos dias normais” - quando entra na via para visitar seus pais, moradores do bairro Pampulha -, “em dia de jogos, nem se fala, ainda mais quando tem clássico”. Comenta que acredita que as obras podem dar certo, mas faz a ressalva de que o trânsito tem que ser “pensado de maneira objetiva, vendo que não vai dar certo investir no asfalto, o governo deve buscar outras alternativas”. Segue o pensamento de que os metrôs podem ser a melhor saída.

O vendedor Wagner acredita no que diz a campanha do governo do estado veiculada constantemente no rádio e na televisão, sobre a cidade estar passando por transtornos que serão temporários, mas que terão como resultado benefícios permanentes. “Hoje está um caos, mas não tem outro jeito, para melhor tem que pior primeiro”, afirma.

Entretanto, os números que apontam para o acelerado crescimento da frota de veículos de Belo Horizonte nos permitem questionar a permanência dos efeitos positivos da duplicação ao longo dos anos. São cerca de 150 mil novos veículos circulando pelas vias da capital mineira a cada ano. O crescimento da frota não acompanha o da população belo-horizontina, ele é proporcionalmente mais acelerado. Em números mais simples, tínhamos há cinco anos 2,86 habitantes para cada veículo em circulação na capital. Hoje esse número é de 2,14 e provavelmente já estará em torno de 2 hab/veic. no próximo ano.

Passam por esse trecho da cidade cerca de 85 mil veículos por dia, esses são responsáveis pela emissão de CO2 e gases poluentes. Uma forma de diminuir esse impacto negativo no meio ambiente é plantar árvores, pois essas são responsáveis por “sequestrarem” gases nocivos da atmosfera. Existiam na região 240 árvores antes da obra. Segundo a SETOP, o projeto paisagístico pretende plantar 1500 árvores, equivalente a seis vezes o número de árvores retiradas. Elas serão espalhadas pelos oito km da avenida, a respeito dessa decisão o diretor geral do Departamento de Estradas e Rodagem (DER), José Elcio Santos Monteze comentou em entrevista dada ao site JusBrasil que "a proteção ao meio ambiente se faz por meio das compensações possíveis, quando é necessário o avanço do desenvolvimento, sempre sustentável".

De acordo com dados do site coloradotrees.org uma árvore converte anualmente 5,9kg de carbono, já um carro emite em oito km 2,25 kg desse gás. A matemática é simples e mostra o resultado paliativo desse plantio de árvores na António Carlos. Seriam necessárias cerca de 11 milhões de árvores para que o ambiente em torno da avenida suportasse o fluxo anual de veículos. Detalhe é que essa conta foi feita sem levar em consideração veículos como os ônibus que fazem o trajeto mais de uma vez.

Como toda obra que desprende dinheiro público os números são sempre importantes, pricipalmente o de empregos gerados. No caso da Av.Antônio Carlos, serão gerados aproximadamente 4.700 empregos diretos e indiretos, segundo os cálculos do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot). Dados da Câmara Brasileira do Comércio da Construção (CBIC) demonstram que a capacidade de gerar empregos no setor da construção é enorme. A previsão é que para cada R$ 1 milhão a mais na demanda da construção, os empregos necessários sejam de 177, sendo 34 diretos e 143 indiretos, de acordo com a entidade.

A avenida foi criada pelo governo de Juscelino Kubitschek, com o objetivo de unir o centro da cidade ao complexo turístico da Pampulha, hoje ela se tornou via de acesso importantíssima. Com a conclusão da obra pretende-se conseguir o alargamento da Av.Antônio Carlos, o que criará um corredor de ligação entre os aeroportos da Região Metropolitana (Pampulha e Confins) ao Centro de Feiras e Exposições de Minas Gerais (Expominas). O governo pretende com isso unir duas obras, a da Linha Verde e do alargamento e com isso impulsionar o turismo de negócios da capital mineira.









É devido a esse desvio de fluxo que, Adão Guimarães, coordenador de planejamento da Superintendência de Trens Urbanos de Belo Horizonte (STU-BH) defende a implantação de linhas subterrâneas de metrô como uma alternativa para desafogar o trânsito da capital, que já é um dos mais intensos e preocupantes do país. Segundo Adão, na última quinta feira, 22 de outubro, foi aprovada a liberação de verba federal para a realização de pesquisas e desenvolvimento de projetos destinados à construção de duas novas linhas de metrô – uma delas, a Linha Três, ligará a Pampulha a Savassi, com várias estações situadas na Antônio Carlos ou nas proximidades da avenida (são elas: Estação Pampulha, próxima a barragem da Pampulha; Estação Mineirão, entre Antônio Carlos e Abraão Caram; Estação Hospital Belo Horizonte; Estação São Cristóvão, próxima ao conjunto IAPI; Estação Bernardo Vasconcelos e Estação Senai).

Além destas, serão construídas as estações Anel, Praça Sete, Afonso Arinos, Liberdade e Savassi. Também está prevista uma ligação com a já existente Estação Lagoinha. Porém, de acordo com o coordenar da STU-BH, as localizações ainda não são definitivas, pois “tudo depende dos estudos que iniciaremos em 2010”. As pesquisas devem levar entre um ano e um ano e meio para serem concluídas, pois é preciso realizar muitos estudos do território e principalmente do solo antes de começar a “escavar” por Belo Horizonte.

Além de reduzir o transito na Antônio Carlos, que é a principal via de ligação entre Pampulha e Venda Nova ao centro da cidade, o metrô terá integrações com diversas linhas de ônibus, diminuindo o tempo de viajem do Wagner, por exemplo. Serão cerca de 12,5 Km de extensão entre separado Savassi e Pampulha que, segundo Adão Guimarães, devem ser percorridos pelo trem em “mais os menos 25 minutos”. Em menos de cinco anos a avenida será a principal via de acesso para um dos mais importantes “palcos” da Copa do Mundo Fifa de Futebol 2014. “Teremos que correr com as abras”, afirma Adão, mas o objetivo continua sendo ter o metrô funcionado para o evento.

Mas, mais importante do que isso, pois não se trata de lago temporário com a Copa, é o fluxo de veículos concentro na região central de Belo Horizonte que deve ser desviado para a Antônio Carlos após a transferência do Centro Administrativo de Minas Gerais para o bairro Serra Verde, localizado na regional Venda Nova. O que exige que, independente da construção da nova linha de trens urbanos, outras vias ligadas a Antônio Carlos (como é caso da Pedro I) passem por melhorias para suportar o fluxo que vem da avenida ou vai em direção a ela.


ANÁLISE

A evolução das obras – mesmo no período de chuvas - já indica que a movimentação frenética de trabalhadores vai dar resultados. À primeira vista, os belo-horizontinos têm certeza de que alguma transformação há, ainda mais estando diante de um projeto tão grandioso como o da duplicação da Avenida Antônio Carlos, que prevê facilidades, interligação de vias e o principal: a dinâmica do transito fluindo (funcionando).

Os que têm frequetado o “centro de construções”, explorando a selva de pedra para chegar ao trabalho, escola ou aeroporto tem sofrido diretamente com as obras. O tempo de deslocamento cresceu e o estimulo a violência no transito está posta. O grau de estresse dos motoristas já era grande e as obras só têm sido agravadas pelo problema. Os exemplos são vários e a psicologia do transito tem ganhado muitos casos para estudo.

Tendo em vista os pontos já apresentados, devemos, na condição de civis e contribuintes da máquina estatal, pensar na utilidade e nos efeitos em longo prazo que obras trarão a população. Em que medida a avenida - com suas pistas duplicadas -, vai atender a demanda de uso da população? Observando o crescimento no número de veículos, essa é uma questão fundamental para o debate.

A antiga impressão de que os veículos são bens essenciais à rotina das pessoas já passou ao estágio da certeza. Os veículos de até sete lugares são a preferência e o sonho da maioria dos jovens e adultos que ainda não possuem um automóvel para uso, que na sua maioria acaba sendo individual. A arquitetura da cidade já se molda a esse novo desejo. O número de vagas para carros nos novos edifícios da cidade comprova o argumento. Estimativas são claras: a população mineira soma, a cada ano, entre cem e cento e cinquenta mil veículos as ruas.

Vias de tráfego exclusivo para coletivos estão projetadas para o Complexo da Lagoinha. Quatro novas pistas centrais serão feitas para facilitar o deslocamento dos moradores da capital. Entretanto, o transporte público de Belo Horizonte é fraco e tem uma das maiores tarifas do país. A capital de Minas cobra a terceira maior tarifa do Brasil de acordo com lista apresentada pelas prefeituras, e está previsto mais um aumento na cobrança apartir do mês de fevereiro do próximo ano.

Os veículos da frota carecem de ajustes básicos, exemplo disso é a distância entre os bancos. O espaço, que quase sempre é menor do que o indicado, por muitas vezes limita e constrange moradores da capital que tem problemas com a obesidade. O número de ‘balaios’ não satisfaz a necessidade da população em horários de pico e a formação de imensas filas faz com que trabalhadores tenham que chegar cada vez mais cedo aos pontos de ônibus. Outro fator agravante da situação é o pequeno número de ônibus equipados com elevadores ou pisos baixos, que facilitam o acesso de deficientes físicos ao transporte.

Problemas básicos, relacionados ao melhor acesso da população ao transporte público marcam um cenário onde obras quase que faraônicas estão sendo feitas. Claro que um aumento no número da frota depende de vias capazes de recebê-los. Entretanto, as novas formas que o transporte público da capital vai tomar, são pouco comentadas e são produzidos gritos em tom de progresso com o alargamento das pistas.

A capital paulistana é o exemplo clássico de problemas no transito. Obras são feitas e os resultados não são satisfatórios; perdas incalculáveis de dinheiro público investido na tentativa de reorganizar os carros. O momento é de conscientização, tanto dos órgãos dos poder público - que seguindo a cultura brasileira, tendem a investir em soluções pouco seguras e ignorar formas alternativas de locomoção, como é o caso dos metrôs e trens -, quanto da própria população que desenvolveu um costume e um sonho falido desde a raiz. Os carros.

Fotos:(1 e 3) Isabella Barroso

Mapa: retirado do site cbtu.gov.br

Autores: Isabella Barroso, Mariana Deslandes e Vítor Teixeira

Jornalismo Uni-bh , sexto período - MANHÃ

O PROGRESSO PEDE PASSAGEM

Com as constantes obras no bairro Lagoinha, a rua Itapecerica vem sendo atropelada pelo desenvolvimento da cidade

Um dos mais antigos redutos comerciais da capital está desaparecendo. Próximo ao centro da cidade, a rua Itapecerica, no bairro Lagoinha, vive hoje um momento de franca decadência. O local que abrigou o segundo maior centro comercial e berço da boemia de Belo Horizonte hoje corre o risco de desaparecer. Uma rua de diversificada arquitetura, com botequins cheios e sempre abertos, pensões, farmácias, mercados, bancos, vilas e casarões.
A rua, principal via de acesso ao centro da Capital, era próxima ao mercado de produtores e à igreja do Bonfim, fato que a fez se desenvolver como um dos principais logradouros comerciais da cidade. "Entre meados das décadas de 1960 e 1980, o comércio neste local era excelente! O que podíamos ver eram pessoas de todos os lugares, não importava se bem cedo ou à noite; aqui já foi o coração de Belo Horizonte e nós fomos esquecidos, assim como a história deste lugar", diz Paulo (nome fictício de um dos mais antigos comerciantes da rua, que não quis se identificar).
As pessoas que passam pela Itapecerica hoje não imaginam o quão movimentada era a rua há cerca de 30 anos. “Era complicado andar aqui, mas se hoje você ficar atento, vai ver apenas quem reside na região", diz Maria da Conceição de Oliveira, 82 anos, segunda moradora mais antiga da rua. Ela se lembra de como era preciso chegar cedo à rua para comprar as melhores mercadorias. "A procura pelos mais diversos produtos era intensa, quem chegasse à tarde dificilmente encontraria o que realmente necessitava", relembra.
Nos anos 60 do século passado, os bares e botequins da rua Itapecerica reuniam artistas diversos. Eram encontrados atores, seresteiros, poetas e dançarinos, amantes da noite e da vida boêmia de Belo Horizonte. Com o crescimento da cidade, a Lagoinha, principalmente a rua Itapecerica, foi obrigada a ceder espaço ao desenvolvimento. A construção do túnel Lagoinha-Glória, dos viadutos e a implementação do trem metropolitano mudaram drasticamente a imagem do bairro.
Para a moradora Joana Pereira Assis, 47 anos, a rua onde foi criada já não tem mais o charme a beleza dos antigos casarões e as pessoas que passam por ela hoje sentem medo. “Ninguém passa pela Itapecerica tranqüilo. Esse monte de viaduto só fez atrair mendigos, viciados e malandros para a Lagoinha”, completa.
Jorge Luiz Bicalho, 56 anos, é o proprietário de um dos mais antigos antiquários da região. Em sua opinião, com o progresso implementado na região, os comerciantes da rua estão tomando prejuízo e o poder público não toma qualquer providência. No entanto, ele não é contra o desenvolvimento da cidade. “Não acredito que haverá modificações radicais na rua, ela está acabando, e vários políticos já estiveram aqui, prometeram milhares de coisas e não fizeram nada”, lamenta o comerciante.
“Os novos viadutos vão prejudicar o comércio da rua”: essa é a opinião de Antonio Augusto Silva, 49 anos, proprietário de uma loja de móveis usados na rua Itapecerica. Com as obras, o trânsito na rua vai acelerar e desafogar o fluxo da Antônio Carlos. “O volume de pedestres na via vai diminuir muito, os carros não vão ter como parar e com isso vai ficar muito difícil manter a loja aberta”, observa.
Os moradores hoje têm um sentimento de nostalgia e continuam acreditando em uma retomada positiva da região. Quando o progresso da cidade seja também sinônimo da valorização de uma das mais tradicionais regiões da capital.

Mais obras na Lagoinha descaracterizam a rua

Com a duplicação da avenida Antônio Carlos, a rua Itapecerica vai ficar ainda mais descaracterizada. Os casarões, as lojas de móveis antigos remanescentes – os pitorescos antiquários - vão dar lugar a mais um viaduto que integrará o novo complexo viário. Com ele, mais comerciantes e moradores deixam a Itapecerica, que se torna quase que somente uma via de acesso, como no início, antes da construção da Antônio Carlos. Uma rua que reuniu boemia, comércio e residências, e até uma pequena vila, que ainda resiste.
Para o encarregado responsável pela obra no trecho próximo a rua Rio Novo, Edson Gomes dos Santos, as obras “não vão interferir na rua Itapecerica”. No entanto, quando questionado sobre os imóveis que estão sendo desapropriados, se contradiz e admite que a obra está retirando aqueles que estão às margens da avenida. Isso elimina mais dois quarteirões de construção. Segundo Edson, não houve problemas nas desocupações. “Quando houve resistência, o aumento no valor das indenizações venceu os moradores e comerciantes”, explica.
A segunda fase das obras de duplicação da Antônio Carlos, entre a rua Operários e o Complexo da Lagoinha, é uma parceria entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Belo Horizonte. Nesta etapa a avenida ganhará sete novos viadutos e passará a ter quatro faixas por pistas e duas faixas centrais exclusivas para ônibus. Estão sendo investidos R$ 250 milhões, sendo R$ 190 milhões do Estado e R$ 60 milhões da Prefeitura, para alargamento da pista, construção dos viadutos e as desapropriações. A previsão é que as obras sejam concluídas em março de 2010. Estão trabalhando atualmente no trecho cerca de 800 operários, demolindo imóveis e construindo as fundações dos viadutos.

Casarões sofrem com tempo e descaso

Os casarões da rua Itapecerica são símbolos da ascensão e queda do logradouro. Foram construídos no ciclo do ouro da região, serviram de moradia a comerciantes, empresários e políticos bem sucedidos. Ostentavam a exuberância e a pujança econômica do comércio de um tempo que ficou para trás.

Hoje, são a marca do descaso. A ação do tempo e a falta de manutenção transformaram as construções em verdadeiras ruínas. Estão descaracterizadas e muitas delas se encontram desabando. Ao todo, são nove casarões e uma fábrica, planejados em sua maioria no estilo arte déco, com destaque para o modelo futurista dessa última.

Eles compõem o conjunto arquitetônico que retrata de forma singular um período marcante da história da capital. No entanto, apenas um dos casarões está tombado pelo patrimônio municipal. Segundo a comerciante Rosângela Silva, 54 anos, proprietária de uma pequena loja na Itapecerica, não existe interesse da Prefeitura e dos donos dos casarões em recuperá-los. “De vez em quando, funcionários da Prefeitura passam por aqui afirmando que vão tombar e arrumar os casarões, mas fica só na promessa", argumenta. Ela ainda revela que os proprietários não cuidam dos casarões porque não querem investir numa região desvalorizada.

Outro comerciante que não quis se identificar conta que os casarões sempre foram motivos de muitas disputas na Lagoinha. "Todos queriam morar nessas casas, eram o sonho de muitos", afirma. Atualmente, muitas delas servem de abrigo para mendigos e drogados, ocasionando diversos problemas para região. "Ninguém quer mais morar aqui, e os donos não tomam nenhuma atitude porque a região está muito ruim e com muita violência", lamenta o comerciante.

Grande parte dos casarões enfrenta sérios problemas de estrutura, sendo que três deles se encontram praticamente em ruínas. Desses, dois desabaram e um teve um incêndio que destruiu toda a fachada. Entretanto, dois deles foram reformados e abrigam hoje um brechó e um escritório de uma empresa. Os outros casarões encontram-se bastante deteriorados e descaracterizados. Entre desabamentos, incêndios e descaracterizações os casarões vão aguardando seu fim ou quem sabe, dias melhores.

Nova Antônio Carlos

Atualmente, a avenida Antônio Carlos possui no trecho em obras, apenas uma pista por sentido com três faixas de rolamento cada uma. Com a ampliação, passará a ter quatro faixas por pista, além de uma terceira pista, com duas faixas exclusivas para o fluxo de ônibus. Dessa forma, a última fase de ampliação da via vai de encontro às etapas anteriores do projeto.
Os viadutos a serem construídos terão, no mínimo, duas faixas por sentido, o que evitará retenções no trânsito da região. Próximo à rua Rio Novo, o viaduto vai complementar o Complexo da Lagoinha, atendendo as interligações do Viaduto Leste e da rua Célio de Castro com a avenida Pedro II, além das ruas Bonfim, Itapecerica e Além Paraíba. Estas ligações ficam disponíveis também para o viaduto Oeste e para a avenida Cristiano Machado.
Segundo a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas, a obra ainda prevê investimentos na melhoria da rede de distribuição de energia elétrica e a construção de passarelas acopladas aos viadutos e passagens semaforizadas para garantir a segurança de pedestres. Exatas 1500 árvores serão plantadas no entorno da Antônio Carlos, um projeto paisagístico que visa tornar o percurso na região mais agradável.
Cerca de 240 desapropriações estão sendo realizadas ao longo da avenida, um gasto de R$ 111 milhões para os cofres públicos. A empresa Consórcio Andrade Gutierrez/ Barbosa Mello é a responsável pela realização das obras.

Postado pelos alunos Patrick Vaz e Wellington Santos

Revisão: Lucas Ribeiro, Letícia Barros, Fransisnei Bispo e Fabiana Cristina

Jornalismo 6° Período - Manhã